Sedentarismo e obesidade infantil

A prevenção é mais barata e mais eficiente do que o tratamento de doenças que deles possam se originar.

Dr. Marconi Gomes


O conceito de obesidade está relacionado a um conjunto de fatores, dentre eles, destacam-se os fatores genéticos, ambientais, psicológicos, emocionais, o sedentarismo, a mudança de hábitos alimentares influenciados pela situação social, econômica e cultural. Essa multiplicidade de fatores talvez seja o principal determinante da grande dificuldade encontrada para o controle desse problema de saúde pública. Os hábitos chamados de sedentários estão presentes em todas as faixas etárias, sendo umas das principais causas da epidemia de obesidade infantil no mundo. Muitas pesquisas demonstram que crianças mais ativas são mais magras do que as que se movimentam pouco. Além disso, o número de horas que a criança passa vendo TV ou jogando videogame também está relacionado com o aumento de peso. Isso é particularmente preocupante porque os programas de TV e as propagandas induzem à ingestão de alimentos altamente calóricos e de baixo valor nutritivo. Além disso, tanto os programas televisivos, mas sobretudo os jogos em smartphones, computadores e videogames definitivamente ajudam a afastar as crianças e adolescentes das atividades físicas. Hábitos chamados de sedentários podem provocar modificações metabólicas prejudiciais e que estarão relacionadas às doenças como diabetes, aumento do colesterol, doenças cardiovasculares, problemas psiquiátricos como ansiedade e depressão, assim como alguns tipos de câncer. Por outro lado, os hábitos considerados saudáveis podem causar adaptações metabólicas que irão prevenir todos os problemas descritos acima, assim como atuar favoravelmente na perda e no controle do peso. O nome técnico dessas adaptações é denominado “flexibilidade metabólica”. Ou seja, a pessoa poderá causar alterações corporais e do metabolismo consideradas favoráveis ou desfavoráveis a uma vida saudável conforme os hábitos praticados.

 

A alimentação inadequada e pouca atividade física são as principais causas da obesidade infantil, sugerindo que o fator de maior impacto na origem da obesidade relaciona-se ao comportamento vigente frente à ingestão de alimentos e aos exercícios físicos. Cerca de 5% a 10% dos casos de obesidade infantil se deve a doenças endocrinológicas. A hereditariedade pode ser um fator de risco, levando-se em consideração o conceito de flexibilidade metabólica, a obesidade, na maior parte das vezes, só se manifestará se o ambiente permitir. A genética só se manifesta se o ambiente for favorável ao excesso de peso. O tratamento e acompanhamento das crianças com excesso de peso é essencialmente comportamental e prioriza a reeducação nutricional e mudanças no estilo de vida.

 

É fundamental que toda a família esteja envolvida, partindo dos pais o exemplo de uma vida saudável. A prevenção da obesidade é mais barata e mais eficiente do que o tratamento de doenças que dela possam se originar.

 

Dicas de prevenção à obesidade infantil da Sociedade Brasileira de Cardiologia - Diretoria de promoção de saúde cardiovascular

 

·       Alimentar-se 5 ou 6 vezes no dia (café da manhã, lanche da manhã, almoço,lanche da tarde, jantar e ceia). Lembre-se que é melhor comer pouco, mas várias vezes ao dia, do que comer muito, poucas vezes ao dia!;

 

·      Escolha alimentos saudáveis como frutas, verduras e legumes e diversifique as formas de preparo;

 

·      Escolha alimentos saudáveis nos lanches e nos momentos de lazer;

 

·      Beba bastante água e sucos naturais durante o dia para manter a hidratação e a saúde do corpo;

 

·      Tome leite e/ou derivados todos os dias;

 

·      Diminua a quantidade de sal e temperos prontos na comida;

 

·      Coma menos salgadinhos de pacotes, refrigerantes, biscoitos recheados, lanches de fast-food, alimentos de preparo instantâneo, doces, sorvetes, frituras e alimentos gordurosos;

 

·      Prefira alimentos assados, grelhados ou cozidos;

 

·      Incentive seu filho à pratica de esportes, como natação, futebol, etc;

 

·      Incentive a participação nos esportes do colégio, além de atividades de lazer fora do horário letivo;

 

·      Controle o estresse da criança com música, passeios tranquilos em família,viagens e momentos alegres;

 

·      Diminua o tempo da criança na frente da TV ou computador;

 

·      Faça acompanhamento com o pediatra e nutricionista para manter o peso adequado da criança à idade e ao crescimento.

 


Pesquisas mostram que brincadeiras comuns da infância estão associadas favoravelmente com o controle e redução do peso. Por outro lado, essas atividades sofrem forte concorrência de uma série de hábitos sabidamente relacionados ao sedentarismo. O aspecto positivo que merece destaque é o fato das crianças relacionarem os exercícios físicos à atividade lúdica (brincadeiras), o que deve constituir-se em elemento a ser valorizado e estimulado pelos educadores em saúde. As brincadeiras podem diminuir o tempo de ociosidade das crianças e adolescentes e poderão entrar no “banco de horas” das atividades físicas praticadas nessa faixa etária. A orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que a prática de atividade física deva ser diária, com no mínimo 60 minutos, em intensidade moderada a vigorosa, devendo incluir atividades que fortaleçam músculos e ossos. Esse é tempo mínimo de exercícios físicos recomendado às crianças e adolescentes justamente por ser um período de formação da osteomuscular e do desenvolvimento neurológico, psicológico e motor. A atividade pode ocorrer no contexto de brincadeiras, jogos, esportes, trabalho, transporte, recreação, educação física ou estar prevista em algum tipo exercício programado e sistematizado (aulas de futebol, tênis, basquete, natação etc). Será nessa fase que se construirá a base de uma vida saudável. Hoje se sabe que a criança obesa apresenta alta probabilidade de se tornar um adulto obeso. Cerca de 30% dos adultos obesos foram crianças obesas, e entre os casos graves essa proporção aumenta para 50% a 75%.

 

Merece preocupação os dados encontrados pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, que detectou que apenas 30,1% dos escolares eram ativos, ou seja, praticavam 300 minutos ou mais de atividade física por semana.

 

A Associação Americana de Cardiologia faz algumas recomendações de atividades para crianças e adolescentes para prevenção das doenças cardiovasculares. Entre elas temos:

 

·      Praticar diariamente atividade física moderada ou vigorosa durante 60 minutos (no mínimo).

 

·      A atividade física para crianças deve ser lúdica.

 

·      Para os adolescentes, exercícios de resistência (10 a 15 repetições), com intensidade moderada, podem ser combinados com atividade aeróbica.

 

·      Diminuir o tempo tomado com atividades sedentárias (TV, videogames, computador, tempo ao telefone celular) para no máximo duas horas por dia.

 

Quanto à família, ressalta-se a importância do acompanhamento familiar para estimular a criança na busca de hábitos de vida saudáveis e o seu papel como núcleo apoiador para o enfrentamento da obesidade e de suas repercussões negativas. Neste contexto, cabe destacar a importância da criança sentir-se segura e motivada na realização de suas tarefas diárias, de maneira inclusiva e junto às demais crianças. Para tanto, é fundamental o papel da família no acolhimento e na abordagem do assunto com a criança.  Nesse cenário complexo, destaca-se a vivência do “Bullyng”, fenômeno que merece atenção especial dos educadores, profissionais de saúde e familiares, no sentido de se encontrar estratégias protetoras, que impeçam situações de constrangimento e os efeitos deletérios de tais experiências nas vidas dessas crianças e adolescentes. Nota-se claramente o impacto negativo da obesidade na vida das crianças que inclui desde a percepção negativa de sua imagem corporal, associada a sentimentos de tristeza, culpa e perda da vaidade, passando pela convivência com as restrições alimentares e as pressões relativas à prática da atividade física.


Assista ao documentário Muito além do peso, através do link:

https://www.youtube.com/watch?v=0v8ENF-lomI


Dr. Marconi Gomes da Silva

Cardiologista e médico do Esporte da Clínica SPORTIF

Membro diretor da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte - SMEXE

Membro diretor da Comissão de Cardiologia do Esporte da Sociedade Mineira de Cardiologia - SMC