O que é a inflamação?


O processo inflamatório é um mecanismo de reação do organismo para que haja uma eliminação, neutralização e destruição da causa de uma agressão. Essa agressão pode se dar por uma bactéria, por um acidente (fratura, contusão), por queimadura, por doenças auto-imunes, entre outras várias causas. Esse processo se caracteriza pela saída de líquidos e células (exsudação) e induz o processo de recomposição celular. Os sinais e sintomas característicos da reação inflamatória são rubor(vermelhidão), calor, edema (inchaço), dor e perda de função da região afetada.

Com a hiperemia(aumento do fluxo sanguíneo), ocorre o primeiro sinal flogístico, o RUBOR, que é caracterizado pela vermelhidão. Como o fluxo sanguíneo aumentou e o sangue contém uma certa temperatura,  acontece o segundo sinal: o CALOR, ocasionando o aumento da temperatura do local. O aumento da permeabilidade e do fluxo  de sangue, deixa os vasos sanguíneos mais porosos e permite saída de conteúdo para fora deles, causando o EDEMA, caracterizado pelo inchaço. Esse edema vai comprimir as terminações responsáveis pela sensibilidade dolorosa, juntamente com a substância prostaglandina que vai irritar essas terminações, ocasionando outro sinal flogístico que é a DOR. Todos esses sinais da inflamação levam à PERDA DE FUNÇÃO, que pode ser total ou parcial, em decorrência dos outros sinais.


Como agem os anti-inflamatórios?

O principal mecanismo pelo qual os anti-inflamatórios exercem seu efeito anti-inflamatório e analgésico é pela inibição da produção das prostaglandinas, substâncias envolvidas nos fenômenos descritos anteriormente. Os anti-inflamatórios não inibem as prostaglandinas diretamente, mas o fazem através da inibição das ciclooxigenases. Existem dois tipos de ciclooxigenases: COX 1 e COX 2. As duas são semelhantes em estrutura, mas responsáveis por ações diferentes.

A COX 1 é constitutiva, tem a função de proteger e assegurar o equilíbrio do organismo. É encontrada em praticamente todos os tipos de células, sendo essencial para o equilíbrio dos rins e para a proteção da parede do estômago, por exemplo.

A COX 2 é indutível e pode ser estimulada por processo inflamatório, podendo causar os sinais da inflamação e perpetuá-los. Também está relacionada ao equilíbrio de alguns órgãos.

O anti-inflamatório ideal seria aquele que inibe apenas a atividade inflamatória das prostaglandinas, preservando a atividade funcional das mesmas. Os primeiros anti-inflamatórios, mais conhecidos como não seletivos, inibem as duas COX, provocando, além da diminuição da inflamação, alteração do equilíbrio dos órgãos como rins e estômago, dependendo do indivíduo, dose e duração do tratamento.

           

Com o avanço das pesquisas e da indústria farmacêutica, os anti-inflamatórios mais recentes foram se tornando mais seletivos pra COX2, que é mais relacionada ao processo danoso do organismo. Sendo assim, anti-inflamatórios mais recentes interferem menos no equilíbrio dos órgãos como os rins e estômago, diminuindo risco de gastrite, sangramento gastrintestinal e insuficiência renal e são, por isso, considerados mais seguros.

 
Quais os anti-inflamatórios mais comuns no dia a dia?

Os anti-inflamatórios são classificados de acordo com os seus derivados e diferem na intensidade das propriedades anti-inflamatórias, potência, posologia, efeitos colaterais e eficácia. Os mais comuns na prática clínica estão listados abaixo juntamente com o nomes comerciais mais comuns.

-Ácido salicílico: ácido acetilsalicílico (AAS)

-Ácido enólico: Piroxicam (Feldene), Tenoxicam (Tilatil)

-Pirazolônico: Dipirona (Novalgina, Neosaldina)

-Ácido Fenilacético: Diclofenaco (Voltaren, Cataflam)

-Ácido Propiônico: Ibuprofeno (Artril), Cetoprofeno (Artrosil, Profenid), Naproxeno (Flanax)

-Paraminofenol: Paracetamol (Tylenol)

-Sulfonilida: Nimesulida (Nisulid)

-Ácido Pirrolacético: Cetorolaco (Toradol, Toragesic)

-Ciclo DIaril : Celecoxib (Celebra), Etoricoxibe (Arcoxia)

           
Quais os efeitos colaterais do uso de anti-inflamatórios?

Estômago e intestino: Existe grande variação entre os anti-inflamatórios quanto ao efeito tóxico gastrintestinal. Pode ocorrer úlcera, erosão, hemorragia e perfuração do estômago e duodeno. Podem causa úlcera e sangramento no intestino e exacerbar doença de Chron e colite ulcerativa, além de diversas lesões esofágicas (erosão, úlcera, eritema e hemorragia). Os sintomas dependem do tipo de anti-inflamatório, dosagem, tempo de utilização e condições prévias do paciente. Pacientes em uso de múltiplos anti-inflamatórios, história de úlcera no estômago, história de sangramento digestivo, em uso de anticoagulantes, idade avançada, uso de álcool e cigarro estão mais propensos a desenvolverem esses sintomas. Anti-inflamatórios mais específicos para COX 2 diminuem esses efeitos.

Rins: Anti-inflamatórios podem exercer efeitos deletérios na função renal, principalmente no equilíbrio, manutenção do fluxo de sangue para os rins e na filtração da urina. Quase todos os anti-inflamatórios provocam diminuição do fluxo sanguíneo dos rins e retenção de sódio. A lesão renal é rara na ausência de fatores predisponentes e, geralmente, ocorro com uso prolongado de anti-inflamatórios. Os fatores de risco são pacientes com disfunção renal prévia, hipotensão arterial, idade avançada, associação de anti-inflamatórios, insuficiência cardíaca e cirrose hepática.

Sistema hematológico: Anti-inflamatórios provocam alteração da coagulação do sangue, por alteração das substâncias envolvidas no processo de estancamento de sangramentos do organismo. Essa alteração do perfil de coagulação desaparece com a descontinuação do uso do anti-inflamatório.

Sistema hepático (fígado): Pode ocorrer lesão hepática com uso de anti-inflamatórios. A incidência de lesão grave é baixa, porém o risco aumenta se o paciente já apresentar alguma doença do fígado com hepatite, for etilista (usuário de bebida alcóolica) e/ou fumante. O uso prolongado de anti-inflamatórios pode causar hepatite crônica.

Sistema dermatológico (pele): As reações dermatológicas ocupam o segundo lugar em frequência e ocasionalmente são graves (como necrose epidérmica tóxica). No geral, são leves como prurido (coceira) e erupções cutâneas. Alguns anti-inflamatórios são mais propensos a causar lesões que outros. As reações podem ocorrer de 7 a 10 dias após o uso e, geralmente, há melhora com a descontinuação do medicamento.

Outros: A hipertensão arterial é variável com diferentes anti-inflamatórios. Os anti-inflamatórios podem causar palpitação, arritmia, taquicardia e edema. Diminuição a acuidade auditiva pode ocorrer com AAS. A indometacina pode causa tonteira, dor de cabeça, confusão mental, depressão. Em idosos, pode ocorrer transtornos psíquicos menores com naproxeno e ibuprofeno.

 
Anti-inflamatórios e automedicação

Como dor e inflamação são sintomas prevalentes, não é rara a automedicação. O uso indiscriminado e sem orientação médica dos anti-inflamatórios pode causar danos extremamente graves e, até mesmo, fatais. Além disso, existem anti-inflamatórios mais e menos potentes e que podem ser mais adequados para a condição inflamatória específica, com melhor eficácia na resolução do quadro. O médico especialista em dor saberá orientá-lo quanto ao uso correto do anti-inflamatório, indicação, dose, eficácia, posologia e efeitos colaterais, além de adequá-lo à sua condição clínica, levando em consideração outros sinais e sintomas, evitando que os riscos sejam maiores que os benefícios.

Por Dr. Carlos Trindade, nosso Clínico da Dor.